Carne de Pasto - Produção Animal Sustentável, por Márcia Patrício

Existe actualmente um tabu quanto ao consumo de carne, especialmente carne vermelha. Mas quando avaliamos os seus efeitos quer no ambiente, quer em termos nutricionais, de facto não encontramos fundamentação para tal. Sabias que, na verdade, não existe um único estudo (que eu conheça, claro!) que demonstre que o consumo de carne vermelha é prejudicial à saúde?

 

A carne na história do Homem

A carne foi um alimento determinante para a evolução do ser humano. O consumo de carne, por se tratar de um alimento denso em nutrientes, teve um papel essencial no desenvolvimento do cérebro assim como nas capacidades físicas que caracterizam o ser humano. Posteriormente, a capacidade de dominar o fogo e cozinhar a carne assim como a de desenvolver ferramentas de corte para a preparar e aproveitar todas as partes do animal, levaram à adaptação do ser humano como animal omnívoro, ou seja, no qual a dentição e sistema digestivo têm características “intermédias” entre um animal herbívoro e um animal carnívoro.

Entretanto, os avanços na agricultura e a globalização facilitaram a aquisição e consumo de legumes e frutas que não existem naturalmente na região onde habitamos e fora da época na qual existem naturalmente, aumentou também a utilização de fertilizantes e químicos indesejáveis na agricultura, alguns com efeitos prejudiciais na saúde e no planeta. A carne passou a ser produzida industrialmente, sendo incentivada a velocidade de crescimento, os cortes de preparação mais fácil e “bonitos” em oposição a cortes com maior valor nutricional.

Muito, em termos de alimentação, mudou nestes últimos 12000 anos, muito mais do que nos 250 000 anos que antecederam. O consumo de carne hoje em dia é visto como ofensivo, mesmo por muitos que o consomem. É considerado pouco saudável, apesar de ter tantas características benéficas para a saúde e considera-se que prejudica o ambiente, quando, na verdade, fazemos tantas mais coisas no nosso dia-a-dia com maior efeito no meio ambiente. Esta desconexão entre a produção animal e o prato explica muito do que sentimos.

 

O efeito da produção de carne no ambiente

Muitas pessoas estão preocupadas com os gases expelidos pelos ruminantes (em especial, as vacas) sem considerar que são seres vivos e que também elas têm direito aos seus gases naturais. Não temos todos.

Há alguns anos, quando ainda existiam mamutes, a quantidade de gases expelida por estes era muito superior à que é produzida atualmente pelas vacas. A produção intensiva é uma necessidade na atualidade e, provavelmente, irá persistir. Este tipo de produção permite a produção de carne (assim como de legumes, frutas e cereais) com menor custo e durante todo o ano. No entanto, é certo que se mais consumidores comprassem e procurassem carne de animais de produção extensiva (carne de pasto, do campo), o preço desta também baixaria. Verificamos isso nos produtos biológicos que, no período de cerca de 10 anos viram o preço baixar consideravelmente.

 

Mas qual a diferença da produção de carne de pasto para a produção intensiva?

Para começar é importante referir que muitos dos vídeos sensacionalistas que vemos na internet são (além de, muitas vezes, retirados do contexto) de outros locais do mundo onde a legislação não é tão exigente quanto ao bem estar animal e qualidade e segurança alimentar quanto na União Europeia. A maior parte das vacas produzidas em Portugal são produzidas em produção extensiva ou semi-intensiva e a presença das vacas no pasto é muito importante para o nosso planeta. O pastoreio animal é importante para a mobilização dos solos, os excrementos animais (estrume e urina) são essenciais para uma boa fertilização do solo, aumentando os nutrientes, a humidade e a biodiversidade. O pasto é importante para reduzir a erosão dos solos e para sequestrar o dióxido de carbono da atmosfera na forma de carbono nas suas raízes. Este carbono é utilizado pelos microorganismos do solo e, em consequência, estes permitem a degradação dos nutrientes e a sua disponibilização para as plantas. Esta biodiversidade, esta vida do solo é essencial para a regeneração do nosso planeta. 

Outro dos argumentos falaciosos é a da quantidade de árvores que são abatidas ou queimadas para preparar o terreno para produção de alimento para os animais, especialmente as vacas. É importante referir que as vacas são ruminantes, com um sistema digestivo fantástico, capazes de converter o alimento mais fibroso em proteína de elevado valor biológico, sendo que, mesmo em produção intensiva, as vacas são, muitas vezes alimentadas, com refugo fibroso após obtenção de produtos destinados a alimentação humana - por exemplo, consomem a palha após se retirar o trigo, consomem bagaço de cevada que resulta da indústria da cerveja e consomem soja após se extrair o grão e o óleo para produção humana.

 

E os gases nas alterações climáticas?

Existem 3 gases considerados no efeito estufa e associados com a agricultura; dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Estes gases advêm essencialmente de combustíveis fósseis, expulsões dos animais, produção de arroz e utilização de fertilizantes. Destes gases importa referir que o primeiro fica na atmosfera por milhares de anos, o último por cerca de 100 anos e o metano por cerca de 10 anos. O metano entra no ciclo do carbono que fica sequestrado no solo e que é biogénico e essencial para a vida dos microorganismos do solo, mesmo assim, a porção de metano que provém das vacas é baixíssima - menos de 1% segundo estudos da NASA. Existem mesmo estudos que demonstram que a produção de vacas de pasto pode mesmo beneficiar o ciclo de carbono, sequestrando nos seus pastos mais do que o que é produzido no ciclo de produção. Existem várias empresas nacionais com pegada neutra em carbono, oferecendo produtos de excelente qualidade, produzidos de modo sustentável.

Lembro que não é minha intenção julgar nem criticar opções alimentares, apenas falar um pouco destas áreas que me fascinam.

 

RECEITA

Burger em panqueca de courgette

2 doses

sem glúten, low carb

 

Ingredientes:

200 g courgette

1 c.s. amêndoa moída

1 c.s. farinha coco

1 c.s. azeite

1 dente de alho

2 ovos

Sal marinho e pimenta q.b.

Azeite para pincelar

 

Preparação:

- Rale a courgette, coloque num pano e escorra a água em excesso. Descarte-a.

- Adicione os restantes ingredientes.

- Aqueça a frigideira e cozinhe as panquecas em lume brando de ambos os lados.

- Sirva as panquecas com o hambúrguer grelhado, queijo derretido e salada.

Perfeito para uma refeição em casa ou em pic-nic.

 

***

A Márcia Patrício, é apaixonada pela alimentação e há alguns anos que se dedica a divulgar e criar receitas da dieta paleo. É Mestre em Engenharia Zootécnica, empresária de frutos em agricultura sustentável e criadora de conteúdos nas redes sociais Temperos da Argas, tendo escrito um livro com o mesmo nome. Assina ainda a revista E-paleo, distribuída através dos seus canais online.

Desafiámos a Márcia para escrever um artigo para o nosso blog, porque acreditamos que, independentemente da dieta que se escolhe fazer, o importante é que se faça um consumo informado e responsável. Este artigo é, naturalmente, um artigo de opinião e procura precisamente proporcionar a todos os que nos leem informação fundamentada, para que cada um possa fazer as suas escolhas de forma sustentada.

Deixamos a seguir um disclaimer da Márcia sobre a informação partilhada e também alguns links que podem ser consultados para obter mais informações sobre este assunto.

 

"O artigo é um artigo de opinião, resultado de várias leituras de livros e estudos científicos, dos quais destaco os seguintes, acessíveis online:  

https://academic.oup.com/bioscience/article-abstract/43/7/466/249121?redirectedFrom=fulltext

https://www.jpl.nasa.gov/news/nasa-led-study-solves-a-methane-puzzle

http://www.fao.org/3/x5304e/x5304e03.htm

http://www.fao.org/3/i3437e/i3437e.pdf

https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/02/SYR_AR5_FINAL_full.pdf

https://www.researchgate.net/publication/312201313_Livestock_On_our_plates_or_eating_at_our_table_A_new_analysis_of_the_feedfood_debate

https://www.epa.gov/ghgemissions/sources-greenhouse-gas-emissions

Além destes, destaco esta excelente referência cuja autora foi entrevistada na E-Paleo: https://www.sacredcow.info/".

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